FLIIR - Festival Literário da Igualdade Racial







O FLIIR – Festival Literário da Igualdade Racial: Entrelaçando Letras e Lutas foi realizado entre os dias 20 e 23 de novembro de 2025, consolidando-se como uma das mais importantes iniciativas nacionais dedicadas à promoção da igualdade racial a partir da literatura, das artes, das políticas públicas e dos saberes produzidos nos territórios negros, periféricos e tradicionais. O festival foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Ministério da Igualdade Racial, por meio da Chamada CNPq/MIR nº 27/2024, e realizado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás).
A organização geral ficou sob a coordenação da professora Thais Alves Marinho, líder do grupo de pesquisa Kilombo Áyàn: Memória Social e Subjetividades Transatlânticas (PUC Goiás/CNPq), coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História e docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Escola de Formação de Professores e Humanidades da PUC Goiás. O FLIIR contou com a parceria estratégica da Associação Na Nave, parceria institucional da RELFET – Rede Latino-Americana e Caribenha de Pesquisas sobre Feminismos de Terreiros, parceria da Festa Literária das Periferias (FLUP) e convênio por meio da Temporada França–Brasil, com apoio da União Europeia e do Instituto Goethe.
Ao longo de quatro dias, o FLIIR reuniu escritoras e escritores, educadoras e educadores, pesquisadoras e pesquisadores, lideranças comunitárias, gestoras e gestores públicos, artistas, juventudes e movimentos sociais, configurando-se como um espaço de escuta qualificada, circulação de ideias e formulação política enraizada nos territórios. O festival prestou homenagem à Conceição Evaristo, referência central da literatura brasileira contemporânea e criadora do conceito de escrevivência, e às intelectuais afro-caribenhas Jeanne e Paulette Nardal, figuras fundamentais — e historicamente silenciadas — da formação do pensamento da Negritude.
Ao reconhecer o papel dessas mulheres na construção de epistemologias negras transnacionais, o FLIIR reafirmou a negritude como experiência histórica e política, atravessada por relações de poder, gênero, território, religião e circulação desigual de saberes. A homenagem às irmãs Nardal evidenciou, inclusive, os silenciamentos produzidos dentro dos próprios movimentos negros, reafirmando o compromisso do festival com uma leitura crítica, interseccional e descolonial da história intelectual da diáspora africana.
No Palco CUFA, concentraram-se as mesas estruturantes do festival. A abertura, em 20 de novembro, foi marcada pela exibição do filme Biguine, do cineasta martinicano Guy Deslauriers, seguida de debate sobre cinema, memória e resistência cultural no Atlântico Negro. Na Mesa de Abertura, estiveram presentes Tatiana Dias Silva, diretora da DAMGI/SENAPIR/MIR, ao lado de Thais Marinho (PUC Goiás) e Julio Ludemir (FLUP), reafirmando o compromisso institucional do FLIIR com a formulação de políticas públicas baseadas na escuta dos territórios.
Ainda no primeiro dia, a mesa "Ciganos do Brasil: Narrar para Existir", conduzida pela Cia de Tradições Ciganas Dirachin Calin, reuniu Marcilânia Gomes, Pedro Bernadone, Samara Soares e Pereira Alcântara, trazendo relatos de vida, música, dança e reflexão política sobre identidade, educação e direitos de povos historicamente perseguidos e invisibilizados.
O coração político-intelectual do FLIIR esteve na série de mesas "Entre Letras e Lutas", realizada nos dois primeiros dias, em torno do lançamento do Volume 2 do Dicionário Biográfico Histórias Entrelaçadas de Mulheres Afrodiaspóricas, que reúne 110 biografias de mulheres negras brasileiras. Essas mesas reuniram 25 pesquisadoras negras, autoras do dicionário, provenientes de todas as regiões do país, compondo um verdadeiro painel nacional de pesquisa, memória e articulação política.
Na Mesa 1 – Redes e Rastros, mediada por Núbia Regina Moreira (UESB/Bahia), participaram Silvana Bispo (BA), Valdenice José Raimundo (PE), Jucinara Cabral da Silva (AM), Cláudia Kathyuscia Bispo de Jesus (AL) e Ana Lídia Cardoso do Nascimento (PA), apresentando trajetórias que articulam universidade, religiosidade afro-brasileira, militância política e luta por território.
A Mesa 2 – Chamas e Caminhos, mediada por Maria Edimaci T. B. Leite (GO), reuniu Iraneide Soares da Silva (PI), Isis Tatiane da Silva dos Santos (AP), Tânia Ferreira Rezende (GO), Elane Carneiro de Albuquerque (AP) e Fabiana Marques do Carmo (SP), destacando experiências de escrita, ativismo, organização política e preservação de memórias negras nos territórios.
Na Mesa 3 – Águas que Correm, com mediação de Joanice Conceição (UNILAB), participaram Amanda Motta Castro (RS), Antonilde Rosa Pires (RJ), Carol Lima de Carvalho (SC), Cíntia Santos Diallo (MS), Heridan de Jesus Guterres Pavão Ferreira (MA) e Mariana Cunha Pereira (RR), evidenciando articulações entre cultura, educação, religiosidade e memória popular.
Encerrando o ciclo, a Mesa 4 – Sementes do Amanhã, mediada pela pesquisadora colombiana Maricel Mena Lopes, reuniu Jhenifer Emanuely Rodrigues dos Santos (DF), Juliana dos Santos Barbosa (PR), Karla Jaqueline Vieira Alves (CE), Solange Rocha (PB), Yone Maria Gonzaga (MG) e Manuela Arruda dos Santos Nunes da Silva (MT), reforçando o caráter transnacional e intergeracional da rede de mulheres negras articulada pelo festival.
No dia 22 de novembro, o FLIIR dedicou sua programação à juventude, à memória e à diáspora. O encontro "Escrevivência Viva" promoveu um diálogo intergeracional entre Conceição Evaristo e jovens do Laboratório de Leituras que leva seu nome. A mesa Políticas de Igualdade Racial e Juventude Negra, mediada por Ana Carolina Souza Ferreira, reuniu Francisco Nonato Nascimento (DCR/SEPAR–MIR) e Joyce Bueno, debatendo estratégias de proteção e promoção da vida das juventudes negras.
Nesse mesmo dia, a leitura dramatizada de E os cães se calaram, de Aimé Césaire, a exibição do documentário sobre as Irmãs Nardal e a mesa "Feminismo Negro Transatlântico", com Léa Mormin Chauvac e Alice Hasters, mediada por Thais Marinho, conectaram Brasil, Caribe e Europa, reposicionando mulheres negras no centro do pensamento anticolonial.
No dia 23, a mesa SINAPIR e a Literatura como Promoção da Igualdade Racial, mediada por Tatiana Dias e com participação de Isadora Bispo, Cícero Alexandre da Silva, Maria dos Milagres Pereira da Silva e Vilma Piedade, reafirmou a literatura como política pública viva. As mesas "Toda Forma de Amor Vale Amar", com Evandro da Conceição e Geni Núñez, e "Cozinha Ancestral: Comida de Quilombo, Comida de Terreiro", com Mãe Conceição d'Lissá, Mãe Celina de Xangô, Yá Marlene Medrado e Flávia Pinto, ampliaram o debate interseccional, articulando afeto, espiritualidade, soberania alimentar e justiça racial.
Paralelamente, o Palco ZN sediou as batalhas do SLAM BR, reunindo slammers de todos os estados do país, entre eles Adrielly Almeida Santos (ES), Akwa Rodrigues da Silva (CE), Anne Silva Cardoso (BA), Fabrício de Sousa Fernandes – Badblack (PI), Mileny Vitória Candido Leme (SP), entre muitos outros. A Final Nacional do SLAM BR consagrou Mileny (SP) como vencedora, garantindo sua circulação internacional em Londres.
A programação incluiu ainda a Mostra de Painéis SENAPIR, com Maria dos Milagres Pereira da Silva, Vívian Karen Anunciação da Silva dos Santos e Michele dos Santos Xavier, e o projeto Conceição em Cena, reunindo artistas de todo o país em criações cênicas inspiradas na obra de Conceição Evaristo, com participações de Alana Clemente Lima, Aline Aguiar Carvalho Brant, Aníbal José Pacha Correia, Anna Paula Moser Mongconãn Demarchi, Caroline Falero da Silva, Gustavo Guimarães Gonçalves, Gustavo Henrique dos Santos Vale, Jonh Wellington Ricardo da Silva, Lourdes Maria Rosa e Marcos da Silva Santana.
O FLIIR reafirmou-se, assim, como espaço de articulação nacional e transnacional das mulheres negras, onde memória, literatura, política, juventude, saberes tradicionais e políticas públicas se entrelaçam como projeto coletivo de presente e de futuro.

